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Dengo, delírio e o direito de amar – 4ª Grandiosa Junina de Sto. Antônio dos Abacaxis

Integrando o ciclo bianual de investigações sobre a Liberdade que marca as celebrações dos 10 anos de atividades do Solar, a exposição Dengo, Delírio e o Direito de Amar propõe reflexões sobre amor enquanto prática de liberdade. Como podemos nos libertar de normas patriarcais e coloniais para experimentar as diversas formas de amar em suas máximas potências? De que maneiras as práticas de amor livre podem questionar e desorganizar as estruturas sociais que sustentam as hegemônicas relações de poder? Como podemos nutrir dengo, delírio e amor como práticas dissidentes capazes de abrir caminho para formas de viver junto mais plenas de carinho, cuidado, cura e prazer compartilhado? A partir dessas questões, o amor é pensado como um princípio de convivência capaz de imaginar e fundar novas formas alternativas de convivência que escapam das normas impostas pelo entrelaçamento milenar entre as instituições da família tradicional, das religiões cristãs, da propriedade privada e do Estado-nação.

Dengo, Delírio e o Direito de Amar integra a 4a edição da Grandiosa Junina de Santo Antônio dos Abacaxis, um modelo experimental de ação cultural desenvolvido pelo Solar desde 2017 que se inspira criticamente nas tradições das festividades juninas, articulando criticamente suas dimensões política e criativa por meio de arte, música, literatura, performance e alimentação. Na ocasião em que refletimos sobre a relação entre amor e liberdade, revisitamos elementos clássicos das festas juninas — como o casamento, a quadrilha, o altar e as simpatias de Santo Antônio — reunindo obras de artistas de diferentes gerações e regiões para pensarmos outras possibilidades de relações afetivas, familiares e comunitárias.

O dengo, termo de origem africana — particularmente das línguas banto, como o quicongo —, carrega sentidos de afeto, cuidado e acolhimento que escapam às formas coloniais e cristãs de amar. Ao invés de remeter ao amor romântico ou matrimonial, dengo evoca uma ética do toque, da ternura, do aconchego e da convivência que não depende da lógica da posse ou da exclusividade. Já delírio, do latim delirare, que originalmente significa sair do sulco do arado — ou seja, desviar-se do caminho reto —, aponta para a importância da fabulação, do prazer e da transgressão como formas de imaginação radical e vida transbordante. Juntas, essas palavras propõem uma política do afeto que se opõe à normatividade e afirmam a importância do direito de amar.

A exposição é dividida em dois momentos significativos para nossas investigações, procurando diluir uma série de diferenças que tensionam o público e o privado nas relações amorosas, familiares, afetivas e sexuais. As obras de Maria Nepomuceno, OPAVIVARÁ!, Caroline Valansi, Antônio Tebyriçá, Vulcânica Pokaropa, Victor Arruda, ladyletal, Movimento de Arte Pornô e Eduardo Kac refletem a liberdade do prazer e do corpo como instrumentos de negociação do comum, ferramentas para encontrarmos novas formas de se organizar socialmente, questionando normas hegemônicas e propondo modos mais coletivos, abertos, sensoriais e afetivos de coexistência. Neste contexto, a sexualidade aparece menos como uma questão individual e mais como uma prática regulada coletivamente nos espaços públicos e sociais, passando a ser reconhecida como um dispositivo de reprodução de relações de poder, abertos a disputas e negociações.

Em um segundo momento da mostra, as obras de Gê Viana, davi de jesus do nascimento, Vulcanica Pokaropa, Nídia Aranha, Laryssa Machada, Miriam Inez da Silva, Rainha F, Yanaki Herrera e Agrade Camíz reúnem imagens que vão na contramão das normas de gênero, sexualidade e reprodução impostas por meio de dispositivos de controle biopolítico. As representações disponíveis pelo sistema heterocisnormativo para o amor, a organização familiar nuclear e as instituições religiosas, são revisitadas e atualizadas de maneira contundentemente crítica pelas artistas. As crenças e as ancestralidades interespecíficas, os desejos entendidos como anti-producentes para a lógica capitalista, a falência do argumento sexual biológico, e as diversas formas imaginadas de amar formulam novos mitos e tradições, que geram transgressões que desafiam e transformam profundamente os modelos normativos de identidade que fixam e excluem formas dissidentes de existência e organização social.

A proximidade entre a rua, as festividades juninas e a exposição, três espaços que se fazem fundamentalmente políticos e poéticos nas relações entre tradição e transgressão, aponta para como nossas relações mais íntimas produzem e são produzidas pela complexidade das relações sociais. Como um campo aberto para a curiosidade, o prazer e a imaginação, Dengo, Delírio e o Direito de Amar nos convida a habitar as delícias compartilhadas para compreender a dimensão coletiva e revolucionária das práticas de amor em liberdade.

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