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Luiz Paulino: O Inventário do Massacre do Carandiru – 2 de outubro de 1992
curadoria Bernardo Mosqueira e Matheus Morani
30 de maio – 5 de julho de 2025
Luiz Carlos Paulino (1967, Presidente Bernardes, SP) é artista visual e sobrevivente da maior chacina ocorrida em uma unidade prisional na história do Brasil: o Massacre do Carandiru. Conhecido também como Bizil, Paulino teve seu primeiro contato com a pintura no início dos anos 1980, quando, interno do regime penitenciário, passou por atividades socioculturais que incentivaram a expressão artística como forma de cuidado e humanização. Desde então, Paulino vem continuamente desenvolvendo sua obra, que seria radicalmente informada pela experiência de testemunhar a brutalidade impensável do dia 2 de outubro de 1992.
Nesta que é sua primeira exposição individual em uma instituição, Paulino apresenta 26 pinturas inéditas que elaboram, de forma potente e comovente, os traumas e as memórias da violenta ação da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que resultou no assassinato de 111 pessoas encarceradas. Ainda que este número faça parte dos dados oficiais obtidos a partir da contagem dos corpos encontrados no complexo penitenciário ao final das 12 horas de operação, a contra-narrativa de Paulino nos revela uma dimensão ainda mais trágica e silenciada do massacre. Segundo o artista, os sobreviventes foram obrigados pelos policiais a descartar os corpos de centenas de vítimas assassinadas em caminhões de lixo para que os corpos fossem triturados e descartados pelos agentes de segurança em diferentes regiões do estado.
Em sua obra, o artista mobiliza diferentes escalas, perspectivas e tratamentos pictóricos que, ao desafiar a linearidade do tempo e a uniformidade do espaço, abrem sobre o plano da pintura brechas para comunicar a complexidade das múltiplas dimensões de sua experiência. Paulino constrói imagens carregadas de simbolismo e atravessadas pelo surreal, capazes de inscrever na história do Massacre a presença de uma batalha espiritual entre forças de proteção e de natureza sombria, expressando o peso do real sem perder o vínculo com o mistério. A presença do que considera um milagre — sua própria sobrevivência — é o ponto de partida e também a base ética da obra de Luiz Paulino. De maneira única e fundamental no campo das artes visuais no Brasil, seu trabalho ultrapassa o senso de denúncia para criar uma linguagem própria, capaz de elaborar a experiência da desumanização vivida nas prisões como parte de um projeto estruturado de violência do Estado. Suas pinturas enfrentam não o suposto fracasso do sistema jurídico e penal brasileiro, mas justamente seu sucesso como instrumento atualizador das práticas coloniais de dominação, segregação e assassinato de pessoas racializadas e pobres no Brasil. Dessa maneira, a obra de Luiz Paulino se manifesta como uma via poética e espiritual de afirmação da preciosidade da vida e da importância dos direitos humanos como direitos inalienáveis.
“Luiz Paulino: O Inventário do Massacre do Carandiru – 2 de outubro de 1992” foi desenvolvida em parceria com o espaço paulistano auroras e integra o programa expositivo e pedagógico que o Solar dos Abacaxis dedica inteiramente aos estudos da ideia de Liberdade em 2025.